Fernando Pessoa nasceu há 138 anos
A Madalena Nogueira
Lisboa, 20 de Dezembro de 1917
Minha querida Mamã:
Bismarck, saindo uma vez do comboio em não sei que estação da Itália, deu um empurrão violento em um fidalgo italiano. Este protestou, não sabendo, aliás, de quem se tratava; protestou, é claro, com o tom, natural nas circunstâncias, de quem exige uma satisfação. O outro limitou-se a olhá-lo, e disse: «Sou o Príncipe Bismarck.» O italiano curvou-se, com ar de quem está satisfeito, e limitou-se, por sua vez, a dizer: «Isso não é uma desculpa; mas, ao menos, é uma explicação.»
Este modo, um pouco esquisito, de começar uma carta diz respeito, literalmente, à circunstância de há perto de quarenta dias eu não escrever para aí uma linha. Vou explicar por que não escrevi; mas, em todo o caso, fica a Mamã já advertida, pela história que contei, que o que vou narrar, servindo de explicação, não poderá nunca servir de desculpa.
(...)
Fernando Pessoa, Correspondência (1905-1922). Assírio & Alvim, 1999, p. 249.
1-6-1916
Prefiro rosas, meu amor, á pátria,
E antes magnolias amo
que fama e que virtude.
Logo que a vida não me cance, deixo
Que a vida por mim passe
Logo que eu fique o mesmo.
Que importa áquelle a quem ja nada importa
Que um perca e outro vença,
Se a aurora raia sempre,
Se cada anno com a primavera
Apparecem as folhas
E com o outomno cessam?
O resto, as outras cousas que os humanos
Accrescentam á vida,
Que me augmentam na alma?
Nada, salvo o desejo de indiff'erença
E a confiança molle
Na hora fugitiva.
(...)
Fernando Pessoa, Obra Completa de Ricardo Reis. Tinta da China, 2016, p. 110.