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21/03/26

Dia Mundial da Poesia

Celebre o dia com Camões, Eugénio de Andrade, Camilo Pessanha, Sophia de Melo Breyner, Chevarría, Fernando Guimarães, Jorge de Sena,  Pessoa, António Botto, Mário de Sá-Carneiro, Natália Correia, entre tantos outros

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Votos de um dia poético!

21/03/25

No Dia Mundial da Poesia


O Poema Original

Original é o poeta
que se origina a si mesmo
que numa sílaba é seta
noutro pasmo ou cataclismo
o que se atira ao poema
como se fosse um abismo
e faz um filho às palavras
na cama do romantismo.
Original é o poeta
capaz de escrever um sismo.

Original é o poeta
de origem clara e comum
que sendo de toda a parte
não é de lugar algum.
O que gera a própria arte
na força de ser só um
por todos a quem a sorte faz
devorar um jejum.
Original é o poeta
que de todos for só um.

Original é o poeta
expulso do paraíso
por saber compreender
o que é o choro e o riso;
aquele que desce à rua
bebe copos quebra nozes
e ferra em quem tem juízo
versos brancos e ferozes.
Original é o poeta
que é gato de sete vozes.

Original é o poeta
que chegar ao despudor
de escrever todos os dias
como se fizesse amor.
Esse que despe a poesia
como se fosse mulher
e nela emprenha a alegria
de ser um homem qualquer.

José Carlos Ary dos Santos

21/03/24

 Como se faz o poema


AS PALAVRAS

São como um cristal,
as palavras.
Algumas, um punhal,
um incêndio.
Outras,
orvalho apenas.

Secretas vêm, cheias de memória.
Inseguras navegam:
barcos ou beijos,
as águas estremecem.

Desamparadas, inocentes,
leves.
Tecidas são de luz
e são a noite.
E mesmo pálidas
verdes paraísos lembram ainda.

Quem as escuta? Quem
as recolhe, assim,
cruéis, desfeitas,
nas suas conchas puras?

Eugénio de Andrade, Poemas. Porto, Editorial Inova, 1971, p. 138.

21/03/23

No Dia Mundial da Poesia... Eugénio de Andrade


SEM DATA

Esta voz com que gritei às vezes
não me consola de só ter gritado às vezes.


Está dentro de mim como um remorso, ouço-a
chiar sempre que lembro a paz de segurança estulta
sob mais uma pedra tumular sem data verdadeira.


Quando acabava uma soma de silêncios,
gritava o resultado, não gritava um grito.


Esta voz, enquanto um ar de torre à beira-mar
circula entre as folhas paradas,
conduz a agonia física de recordar a ingenuidade.

Apetece-me explicar, agora, as asas dos anjos.

Jorge de Sena. Perseguição. Assírio & Alvim, 2021, p.62

21/03/20

Condição

Constrói ao menos
qualquer coisa efémera ....
Pois mais não podes ser,
sê ao menos efémero.

Grava os passos na areia,
desenha sobre a estrada
teu vulto.
É melhor do que nada.

A desfazer-te o rastro
virá o Mar, é certo.
Vira, é certo, a Noite
beber a tua sombra.

Efémero? Serás ...
Mas presente
no Mar, eternamente;
na Noite, para sempre.

in Sebastião da Gama, Campo Aberto, 1967, p. 89

21/03/18

Dia Mundial da Poesia

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Tudo à Minha Volta

Tudo à minha volta cumpre
um destino silencioso e incompreensível
a que algum deus fugaz preside.
Fora de mim, nas costas da cadeira

o casaco, por exemplo, pertence
a uma ordem indistinta e inteira.
Dava bem todo o meu sentido prático
pela sua quieta permanência em si e na cadeira.

A realidade dos livros em cima da mesa
parece tão estritamente real!
As filhas falam, barulhentas e reais,
e eu próprio, em qualquer sítio, sou real.

Sob este rio real
o rio que me arrasta, de palavras,
como dentro de mim ou fora de mim?
O que pensa? Estou lá, ou está lá alguém,

como está neste lugar (qual?),
e como os livros na mesa?
O que fala falta-me
em que coração real?

É duro sonhar e ser o sonho,
falar e ser as palavras!
E, no entanto, alguém fala enquanto fujo,
e falo do que, em mim, foge.

Sem que palavras alguma coisa é real?
As filhas sabem-no não o sabendo
e falam alto fora de mim
sem falarem nem não falarem.

Em mim tudo é em alguém
em qualquer sítio escuro
como se houvesse um muro
entre o que fala (quem?)


Manuel António Pina | "Todas as palavras - poesia reunida 1974-2011", págs. 136 e 137 | Assírio & Alvim, 2012

21/03/17

Litoral

À noite, no refúgio que me faço
Num mar de nuvens me descubro imerso,
Digo palavras tantas pelo espaço
E de cada palavra nasce um verso.

Se um braço estendo, já não é meu braço,
É qualquer coisa solta no universo;
Se me quero mover me despedaço
E em mim mesmo ficando estou disperso.

Surpreso, volto ao natural de em torno:
No quarto claro a luz me acaricia,
Tudo tem sua forma e seu contorno.

Daquele mar nocturno enfim liberto,
Deste, na praia ao sol vem a alegria,
Posso nele saltar de peito aberto.


Ribeiro Couto, Longe, p.133

21/03/16

Dia Mundial da Poesia


Paisagem 
Passavam pelo ar aves repentinas,
O cheiro da terra era fundo e amargo,
E ao longe as cavalgadas do mar largo
Sacudiam na areia as suas crinas.

Era o céu azul, o campo verde, a terra escura,
Era a carne das árvores elástica e dura,
Eram as gotas de sangue da resina
E as folhas em que a luz se descombina.

Eram os caminhos num ir lento,
Eram as mãos profundas do vento
Era o livre e luminoso chamamento
Da asa dos espaços fugitiva.

Eram os pinheirais onde o céu poisa,
Era o peso e era a cor de cada coisa,
A sua quietude, secretamente viva,
E a sua exalação afirmativa.

Era a verdade e a força do mar largo,
Cuja voz, quando se quebra, sobe,
Era o regresso sem fim e a claridade
Das praias onde a direito o vento corre.

Sophia de Mello Breyner, Daqui Houve Nome Portugal. Porto, Inova, 1968, p. 217 

Paraíso Perdido

Não sabem mais que brincar.
Balir uns balidos leves.
Sugar as tetas da Mãe.
Dar marradinhas sem mal,
por não terem outro modo
de contar que são alegres.

E o Tempo finge que dorme,
enquanto saltam na relva...
Têm presos ao pescoço
chocalhos que são brinquedos.
Ai que lindos os cabritos!
Que naturais e perfeitos!
Vejam lá de que se serve 
nossa Madre Natureza
pra mostrar como era tudo
se não fosse a macieira!

Sebastião da Gama, Itinerário Paralelo. Lisboa, Ática, 1967, p. 105

21/03/14

ESPERAR

Aqui estou
Com vontade de partir
ou de chegar
A qualquer lugar,
Onde o céu estivesse azul,
O vento soprasse
E nas nuvens chegasse
Alguém para me abraçar.

Mas, antevejo
Que os dias vão correr
Como areia fina por entre meus dedos.
E sem saber o que fazer
Sinto a alma a padecer
e o meu corpo reclama
A legitimidade de um abraço
Longo e prolongado,
Terno e manso
Como se de um tónico se tratasse

Vou esperar,
Que o Dia nasça,
Que o Sol aqueça
E aguardar ou mesmo amarfanhar
Esta vontade que me devora
Mesmo que aconteça
Numa noite de luar.

Maria José Carvalho Areal in Pedaços de Mim, 1999

21/03/12

21 de Março
Dia Mundial da Poesia



Ser Poeta - Florbela Espanca, por Luís Represas
A um Livro

No silêncio de cinzas do meu Ser
Agita-se uma sombra de cipreste,
Sombra roubada ao livro que ando a ler,
A esse livro de mágoas que me deste.

Estranho livro aquele que escreveste,
Artista da saudade e do sofrer!
Estranho livro aquele em que puseste
Tudo o que eu sinto, sem poder dizer!

Leio-o, e folheio, assim, toda a minh’alma!
O livro que me deste é meu, e salma
As orações que choro e rio e canto! ...

Poeta igual a mim, ai que me dera
Dizer o que tu dizes! ... Quem soubera
Velar a minha Dor desse teu manto! ...

Florbela Espanca, in "Livro de Mágoas"