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27/08/20

Vazios

Há vazios que não se explicam.
Sabem-se, sentem-se, pressentem-se,
Na esquina da rua,
No peitoril da janela,
No chão do caminho,
No olhar do João que passa em passo de corrida.
Há vazios que nos perseguem.
Descobrem-se na rosa desfolhada
Pelo tempo,
Pelo vento que sem o sentir já sente,
Que passou junto de si.
E despida da sua beleza,
Ninguém a olha, nada a afaga
Desabrigada da sua inata sedução.
Há vazios em casas cheias,
De pão, palavras, gestos e corpos,
Atulhados de suposições,
Aparelhadas cantarias
Paredes pejadas de fotografias,
Corredores infindáveis,
Jardins cuidados de canteiros sem flores.
Há vazios na rua pejada de gente
E a rua está cheia de gente vazia.
Há vazios que não se explicam.
Sabem-se, sentem-se, pressentem-se.


Poema e fotografia de Maria José Areal

21/03/15

Dia Mundial da Poesia


As palavras que digo
 
Escancaro a entrada do dia
Como se fosse sempre o primeiro
Da minha madrugada.
Ofereço-me por inteiro
Sem reservas esfumadas,
Sem frisos gradeados,
Nem temores e por amor
Me entrego às palavras
Que desenho, que escrevo, que sinto.
E porque as sinto vivas,
Latejantes,
Destemidas,
Vo-las digo do alto deste monte,
Do sopé desta colina
Para que sejam livres
E possam ser definitivamente, vossas.

                                      Maria José Areal

05/03/14

ENCONTRO

Hoje o sol apareceu
Tímido, talvez mesmo envergonhado
De tantas vezes prometer aparecer
E de outras tantas ter faltado.
O céu não está azul.
Nuvens brancas e cinzentas
Bailam por cima de mim
Como que jogando às escondidas
Comigo, contigo, com o sol…
As brancas lembram algodão doce
Em dia de romaria
Na boca das crianças.
As cinzentas são pedaços
De vidas repartidas,
De sonhos nunca sonhados,
Ou talvez de almas perdidas
À procura de um afago.
Mas o sol abraça-me de frente
Num abraço bem apertado,
Que nem as nuvens brancas ou cinzentas
Conseguem empobrecer
Este encontro tão desejado.


Hoje o sol apareceu
Tímido, talvez envergonhado. 


Maria José Areal in Pedaços de Mim,1999

01/03/14

Se eu fosse...

Se eu fosse gaivota branca
E pudesse voar
Poisaria na torre mais alta
Para te ver despertar.
E num rodopiar
Suave, terno e manso
Te diria:
- Acorda, que já é dia!
Vem ver o sol a nascer
E as crianças a correr.

Se eu fosse gaivota branca
E pudesse voar
Poisaria em ti criança
Para te ver despertar
E com bicadinhas de ternura
Te diria:
- Salta da cama,
Abre a janela de par em par, 

Pula escada fora
E vai para a rua brincar!

Se eu fosse gaivota branca
E pudesse voar
Poisaria em ti velhinho
Quando estás a ver passar.
E com largo abraço
Te diria:
- Olha este azul do céu
Esta imensidão do mar
Que foi sempre o teu olhar.
O dia não escureceu, 
Agarra-te bem à vida
Que este dia ainda é teu.


 Se eu fosse gaivota branca
E pudesse voar
Estaria sempre conTigo
Aqui ou em qualquer lugar.


Maria José Areal in Pedaços de Mim,1999

 

25/01/14

Os olhos das crianças

Os olhos das crianças
Sabem da cor do céu,
Do voo das gaivotas,
Do tojo e da urze dos montes.
Os olhos das crianças
Olham-nos bem por dentro
Dizem palavras de luz,
E contam-nos os segredos
No encantamento.
Os olhos das crianças 
Dizem coisas,
Sabem coisas
Mesmo que pareçam distraídos.
Os olhos das crianças
São a vida a acontecer
No fio da luz,
Na crista da onda,
Na palavra solta
Que vai até ti.
Os olhos das crianças
Sabem da cor do céu,
Olham-nos bem por dentro,
Dizem palavras de luz.

Maria José Areal, Na Eira dos Pardais, Chiado Editora, 2013, p. 91