01/07/14

Regresso

As janelas da casa em que eu nasci
já não sabem quem sou, não me conhecem.
Há cem outonos de alma que parti:
os longes da paisagem reverdecem.

A um canto, como outrora, o meu espectro,
o meu espectro de criança ainda,
cisma em reinos de fadas, tem o ceptro
contra a blusa de linho que o alinda.

Outros espectros vêm meigamente...
Mas só este agora me hipnotiza,
fechado em sua cisma, inconsciente.


E eu, que tinha vontade de beijá-lo,
quedo, gelado: temo até que a brisa
ou que um murmúrio de erva vá acordá-lo.

António Patrício, Poesias. Edições Ática, 1954, p. 131-132.

4 comentários:

Isabel disse...

Um lindo poema!

ana disse...

Muito bonito, Cláudia.
Não conhecia o poeta, pelo menos não me lembro de o ter lido.
Beijinho. :))

Cláudia Ribeiro disse...

Obrigada, Isabel!
Pouco li do autor.

Um beijinho.:))

Cláudia Ribeiro disse...

Ana, António Patrício está bastante esquecido. A sua obra apesar de não ser vasta, tem alguns títulos de referência como Oceano; Pedro, o Crú; O Fim.
Foi dramaturgo, poeta, contista.

Um beijinho.:))